Leão vira sereia em Cingapura

Marina Bay Sands visto do hotel Mandarin Oriental
Marina Bay Sands e o ArtScience Museum vistos do hotel Mandarin Oriental

Chineses, malaios, indianos e ocidentais de diversas procedências habitam Cingapura, minúscula ilha no Sudeste da Ásia. A mistura de etnias resulta em uma cidade-Estado original e interessante por seu povo, seus idiomas (são quatro as línguas oficiais: inglês, mandarim, malaio e tâmil) e pelo imenso investimento em novas atrações, que estimulam o turismo enquanto melhoram ainda mais a boa qualidade de vida local. Depois do boom econômico nos anos 1980 — a ilha foi um dos tigres asiáticos — Cingapura deixou de lado a fama de lugar sem personalidade e hoje tem novas e atraentes atrações inauguradas a cada ano. Em agosto, completa 50 anos de independência.

Parte das arquibancadas do GP de Fórmula-1 e a roda-gigante Singapore Flyer
Teatros da Esplanada, arquibancadas da F-1 e  a Singapore Flyer

Na extremidade da Península da Malásia, entre o Oceano Índico e o Mar do Sul da China, Cingapura começou a ficar menos longe dos brasileiros em 2011, quando a Singapore Airlines, considerada uma das melhores companhias aéreas do mundo pela consultoria britânica Skytrax, iniciou um voo direto a partir de São Paulo (com uma escala técnica de uma hora em Barcelona). Até a etapa do Grande Prêmio de Fórmula-1 que é realizada aqui desde 2008, em setembro, é diferente. O GP de Cingapura é o único noturno, em um circuito de rua que valoriza a arquitetura moderna de parte do Centro da cidade e sua impressionante iluminação.

O antigo prédio dos Correios hoje é o Fullerton Hotel
O antigo prédio dos Correios hoje é o Fullerton Hotel

Um olho está no futuro, nas construções arrojadas e na preocupação constante com a sustentabilidade, porém o outro continua no passado, valorizado nos muito bem conservados prédios dos bairros étnicos e da época da colonização britânica e na preservação da exuberante natureza tropical da ilha. O resultado é um presente encantador.

O adorável Merlion
O adorável Merlion

O passado continua gravado também no símbolo local adorado pelos moradores, o Merlion, que fez 40 anos em 2012 . A estranha figura tem cabeça de leão (Cingapura quer dizer “cidade do leão”) e rabo de sereia, para lembrar um passado mais remoto, quando o lugar era apenas um pequeno vilarejo de pescadores. A história soa bizarra, e é, mas é fácil se enternecer com o culto ao quarentão simpático, de 8,60 metros de altura, que passa os dias e as noites cuspindo água na foz do Rio Cingapura, em Marina Bay, a principal área turística da cidade.

“Please, don’t do the Merlion!”

Com uma alta renda per capita, limpa e segura, a ilha tem hoje cinco milhões de habitantes e é um destino asiático sedutor como uma sereia, inclusive para quem viaja com crianças, não somente pela arquitetura e pela história peculiar, mas pelas compras, pela diversão, a gastronomia, a natureza, a vida cultural. E a gentileza e o senso de humor. Uma das piadas locais pede a quem começa a beber demais: “Please, don’t do the Merlion” (“Por favor, não faça como o Merlion.”).

O Rio Cingapura encontra Marina Bay
O Rio Cingapura encontra Marina Bay

O sedutor Merlion pode ser o ponto de partida para os principais roteiros turísticos por Cingapura. Depois de seguir a multidão e tirar sua foto com ele, dá para fazer boa parte dos passeios a pé. As distâncias não são grandes e os caminhos são planos, mas leve em conta o calor constante e a umidade relativa do ar, que beira os três dígitos. Chuvas são frequentes, mas costumam passar rápido, com exceção do mês de novembro, época das monções. Algumas paradas em ambientes fechados e com ar-condicionado serão mais do que bem-vindas. O Merlion fica na região de Marina Bay, onde deságua o Rio Cingapura, que atravessa o Centro da cidade.

Cingapura / Foto de Carla LencastreCingapura / Foto de Carla Lencastre

O terraço do Marina Bay Sands

Um dos caminhos a partir do Merlion, pela Marina Bay, leva ao hotel cassino Marina Bay Sands, ao Gardens by the Bay e às Supertrees, imensas estruturas de concreto cobertas de plantas. O Sands destaca-se na paisagem por sua arquitetura arrojada. São três torres de 55 andares interligadas no topo por um terraço arborizado, na altura do 57º andar.

A piscina do Marina Bay
A piscina do Marina Bay

A principal atração do hotel é uma piscina de 150 metros de extensão com borda infinita e vista para a cidade. Essa área é restrita aos hóspedes, mas pode ser visitada em tours guiados ao longo do dia. Mesmo que você não consiga fazer isso (a inscrição é no local, por ordem de chegada), vale a pena subir até o mirante, batizado de Skypark. Da área aberta para visitantes em geral, dá para ver parte da piscina do hotel e, principalmente, a cidade, incluindo os navios cargueiros no Estreito de Cingapura (a ilha tem um dos mais movimentados portos do mundo), as Supertrees e as duas estufas do Gardens by the Bay, a roda-gigante Singapore Flyer, parte das arquibancadas do Grande Prêmio de Fórmula-1, as duas modernas cúpulas dos teatros da Esplanada, o campo de críquete em pleno centro da cidade (herança dos tempos coloniais) e o paredão de arranha-céus do Distrito Financeiro.

Os domos do Gardens of the Bay visto do mirante do hotel Marina
Os estufas do Gardens by the Bay vistas do mirante do hotel Marina
A ponte de pedestres The Helix
Helix, ponte de pedestres

No caminho do Merlion para o Marina Bay Sands passa-se pelos teatros da Esplanada, pelos grandes hotéis de luxo da região, como o Mandarin Oriental (um de seus bares, o Morton, sempre concorrido na happy hour, tem vista privilegiada para a corrida de F-1) e o Ritz-Carlton, por parte da pista do circuito de F-1 e pela linda ponte de pedestres Helix. Do outro lado da ponte, além do Sands, estão o ArtScience Museum e The Shoppes at Marina Bay, ambos parte do complexo do Sands. O Museu de Arte e Ciência fica dentro de uma grande flor de lótus de concreto, e foi projetado por Moshe Safdie, arquiteto israelense radicado em Toronto. A área em frente ao shopping, de frente para a baía, é concorrida para passeios e corridas de fim de tarde, quando o calor diminui um pouco.

Além de muitas lojas de grifes, como em toda Cingapura, o Shoppes at Marina Bay tem bons restaurantes. Um dos mais originais é o da companhia de chá TWG. Junto com a boa cerveja Tiger, os chás da TWG são dos poucos produtos consumidos em Cingapura fabricados no país. Frutas, legumes e verduras vêm da vizinha Malásia, por exemplo. Entrar em um supermercado é uma experiência curiosa: tudo é importado de algum lugar, do arroz aos produtos de limpeza. Mas voltemos ao restaurante da TWG, pertinho da linda butique da grife, que vende chás, geleias de chá, macarons de chá, acessórios para chá: o lugar é tão bonito, decorado com orquídeas coloridas, que você até esquece que está no meio de um shopping, entre uma loja Prada e outra Dior.

Restaurante de Daniel Boulud no Shoppes at the Bay
db Bistro Moderne no Shoppes at Marina Bay

Dois outros restaurantes que também valem uma refeição ficam um andar acima: uma filial do db Bistro Moderne, de Daniel Boulud, e, ao lado, o Mozza, do americano Mario Batali. No db, o carro-chefe são os famosos hambúrgueres do chef francês radicado em Nova York. No Mozza, dividido em pizzaria e trattoria, há um delicioso bar de mozzarellas e um ótimo Sling, um gim tônica, o drinque tradicional de Cingapura. De um modo geral, os pratos custam o mesmo que em restaurantes de níveis equivalentes no Rio e em São Paulo, mas as bebidas saem um pouco mais caro.

Supertrees iluminadas
Supertrees iluminadas

Cingapura / Foto de Carla LencastreCingapura / Foto de Carla LencastreDo Marina Bay Sands dá para continuar a pé até o Gardens by the Bay. Tente programar parte da visita para a noite, para ver as Supertrees à luz do dia e, depois, iluminadas (o restante do parque é bem escuro). São 12 as árvores artificiais na área principal, conhecida como Supertree Grove. Os jardins verticais, que possuem painéis de energia solar e recolhem água da chuva, têm alturas entre 25 e 50 metros e quase 170 mil plantas, incluindo orquídeas e bromélias. Uma passarela liga duas árvores pelo topo. Na Supertree Grove, a mais alta, há um bar na “copa” da árvore.

Cloud Forest
Cloud Forest: floresta tem orquídeas, bromélias, begônias e uma cascata
Baobás no Flower Dome
Baobás no Flower Dome

O Gardens by the Bay tem entrada franca e fica aberto até tarde, mas as estufas (e a passarela das Supertrees) fecham às 20h. Os conservatórios são bem diferentes um do outro, e vale visitar os dois, que têm clima bem mais ameno do que do lado de fora). A Cloud Forest é uma floresta que alcança 35 metros de altura, repleta de orquídeas, bromélias e begônias, com direito a uma cascata. Um elevador leva ao topo, e os visitantes descem por uma passarela circular, em meio às plantas. O Flower Dome tem baobás, cáctus e flores de várias partes do mundo. Entre as estufas e as Supertrees há lindos jardins ao ar livre, com muitas informações sobre as plantas, e esculturas. Os dois domos também têm esculturas entre as plantas, e boas lojas de suvenires.

Marina Bay Sands visto de um jardim no Gardens by the Bay
Marina Bay Sands visto de um jardim no Gardens by the Bay

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(Versão atualizada de texto originalmente publicado na revista Boa Viagem do jornal O Globo.)

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