Sexo, poder e fama em Puerto Vallarta

Marina em Puerto Vallarta
Marina em Puerto Vallarta

Se Hollywood já seguisse a moda de criar neologismos com nomes de casais famosos na década de 1960, Dickliz seria o equivalente ao Brangelina de hoje. Richard Burton e Elizabeth Taylor tinham beleza, fama, poder e sex appeal semelhantes ao do casal formado por Brad Pitt e Angelina Jolie. Quando começaram a namorar, atraíram as lentes de todos os papparazzi da época, até porque ambos eram comprometidos com outras pessoas. E olha que eles escolheram uma cidade que não passava de uma vila de pescadores no litoral mexicano do Oceano Pacífico: Puerto Vallarta.

Chove chuva no Centro Histórico
Chove chuva no Centro Histórico

Burton foi para o México filmar “A noite do iguana” (1964), com Ava Gardner, dirigido por John Huston. Liz Taylor foi atrás. Enquanto os dois namoravam (e brigavam) em um cenário clichê de paraíso tropical, Puerto Vallarta ia aparecendo no mapa do turismo, de onde não saiu mais. Bastam algumas horas no balneário para entender o porquê. Linda e charmosa ainda hoje, quando a vila de pescadores é apenas uma foto amarelada num filme em branco e preto, deve mesmo ter sido o lugar perfeito para viver uma paixão. Puerto Vallarta nunca vai esquecer aquela noite.

O cenário é do Trópico de Câncer, mas nada muito diferente do que vemos por aqui em torno de Capricórnio. A vegetação entrecortada por rios lembra a Mata Atlântica, com muitas bananeiras e bromélias, mas fica na mesma latitude que o Havaí. Pelas ruas, há amendoeiras e mangueiras. Puerto Vallarta está aninhada na Bahía de Banderas, o que a torna ainda mais acolhedora, apesar de hoje já ser uma cidade bem maior do que uma vila de pescadores, com mais de 200 mil habitantes e três milhões de visitantes por ano.


Puerto Vallarta / Foto de Carla Lencastre
Puerto Vallarta / Foto de Carla LencastrePuerto Vallarta / Foto de Carla LencastrePelas ruas do Centro Histórico

O Centro Histórico guarda o calçamento pé de moleque e as casas caiadas com telhas vermelhas. Lembra Paraty. A história das duas cidades tem outros pontos em comum além de pescadores e pedras nas ruas. No estado de Jalisco, a colonial Puerto Vallarta também foi o porto de escoamento de minério. No caso, a prata. A região é ainda uma das poucas produtoras mundiais de opala. Muito antes do minério e das pedras preciosas, o primeiro a chegar à Bahía de Banderas, ainda em 1525, e a batizá-la, foi o explorador Francisco Cortés de San Buenaventura, sobrinho do conquistador Hernán Cortés. Nos três séculos seguintes, nada relevante aconteceu no lugar.

E a chuva continua...
Loja de azulejos no Centro

A vila só começou a ser povoada no século XIX, com a exploração das minas de prata, e foi ser reconhecida como cidade em 1918, para passar mais quatro décadas parada no tempo. E talvez continuasse assim até hoje, não fossem John Huston, Richard Burton, Elizabeth Taylor, Ava Gardner, Deborah Kerr, Sue Lyon… Até Tennessee Williams, autor da peça que inspirou o filme “A noite do iguana”, acompanhou as filmagens. Com um elenco desses e seus respectivos acompanhantes passeando, bebendo, namorando e brigando pelas ruas e praias da cidade, seria mesmo impossível que Puerto Vallarta continuasse fora do mapa.

Catedral de Nossa Senhora de Guadalupe
Catedral de Nossa Senhora de Guadalupe

Numa das cenas iniciais do filme, aparece rapidamente a simples e linda Catedral de Nossa Senhora de Guadalupe, a padroeira mexicana, que domina o Centro histórico desde o início do século XX, com uma espetacular coroa de prata no topo da torre do relógio. A igreja dedicada à Lupita, como a santa é chamada no país, fica perto da Plaza de Armas e é um bom ponto de partida para um passeio a pé, admirando as casas de arquitetura colonial com vasos de buganvílias, gerânios e hibiscos nos pequenos balcões.O entorno está repleto de referências ao casal formado por Richard Burton e Elizabeth Taylor, incluindo a Casa Kimberly, onde eles moraram por muitos anos. Na realidade, são duas villas em estilo espanhol, interligadas por uma ponte, que só foram vendidas por Elizabeth Taylor no final da década de 1980, quando Burton já estava morto. A casa, na Calle Zaragoza 445, foi comprada pelos novos donos com mobília original, roupas e fotos do casal. Desde então, já passou por várias encarnações, inclusive uma como bed & breakfast.

Cavalo-marinho em tempestade tropical
Cavalo-marinho em tempestade tropical

Perto da Kimberly, um restaurante onde o casal famoso costumava jantar homenageia a dupla de atores com suas estátuas em gesso na entrada. Muitos anos depois do tórrido e tumultuado romance com Liz Taylor, Burton voltou à região e comprou outra casa não muito longe da primeira para outra mulher, Susan Hunt. Hoje essa casa faz parte de um hotel boutique, o Hacienda San Angel. A suíte Celestial é o antigo quarto de Richard Burton e Susan Hunt. Ainda no Centro, um delicioso passeio é andar pelo Malecón, o calçadão à beira-mar, enfeitado com um cavalo-marinho em bronze, o símbolo da cidade, e esculturas contemporâneas. A maioria é de muito bom gosto e se você não vê nenhuma neste post é porque uma tempestade tropical caiu justamente na hora em que fiz esse passeio. Sim, Puerto Vallarta tem lindas praias e como qualquer cidade perto dos trópicos, fortes chuvas de verão. Mas nada que tire o encanto do lugar nem destrua as muitas esculturas feitas de areia.

Puerto Vallarta / Foto de Carla LencastrePuerto Vallarta / Foto de Carla Lencastre

Detalhes de uma loja de azulejos

Não faltam cafés, bares e restaurantes, ou lojas, onde esperar a chuva passar. Nas lojas, o que mais se encontra são azulejos, artesanato em couro ou madeira e elaboradas peças com miçangas feitas pelos índios huichol, descendentes dos astecas. Entre os restaurantes, há de casas do que se convencionou chamar de comida típica mexicana a filiais de redes americanas, como Bubba Gump Shrimp Co.

Luxo nas areias de Mismaloya

Mismaloya
Mismaloya

Saindo do Centro de Puerto Vallarta, a história de amor de Richard Burton e Elizabeth Taylor continua acompanhando o visitante. Tome o rumo de Mismaloya, a praia onde foi filmada a maior parte de “A noite do iguana”. Na colina que emoldura a areia e o mar, ficava o hotel de Ava Gardner, onde o personagem de Burton vai buscar abrigo. Na época, não havia caminho por terra ligando o Centro a Mismaloya, e a produção do filme ia e voltava de barco. A estrada atual, asfaltada e cheia de curvas à beira-mar, foi aberta no final da década de 1970. Hoje, a região tem casas espetaculares e novos apartamentos de luxo em condomínios na encosta. Muitos transformam trechos de areia em praias particulares. Por lei, há sempre um acesso público em algum lugar, mas não é fácil fazer uma caminhada em linha reta pela beira-mar. Dos tempos do filme de John Huston, há um restaurante debruçado sobre o mar que, dizem, era o preferido pelo casal Dickliz para apreciar o pôr do sol. O nome do estabelecimento não poderia ser mais apropriado: El Set. Hoje, quem quiser ficar hospedado em Mismaloya tem entre as opções um resort Barceló e o hotel Casa Iguana.

A praia mais badalada do pedaço é a dos Mortos, entre Mismaloya e o Centro, não acaso o lugar de onde saíam os barcos para Mismaloya. Um político local quis mudar o nome para Praia do Sol, mas a ideia não foi adiante quando foi traduzida para o inglês: o som de Sun Beach é praticamente o mesmo de um palavrão na língua dos turistas americanos, que são os que mais visitam o México. O povo local achou que seria melhor que os gringos continuassem pegando sol com os mortos do que com os filhos sabe-se lá de quem.

Fala-se muito de Richard Burton e Elizabeth Taylor por conta do rumoroso romance e da paixão do casal por Puerto Vallarta. Mas o diretor do filme, John Huston, também se apaixonou pela região, onde voltou várias vezes até perto da sua morte, em 1987, e chegou a ter por anos uma casa em meio à floresta tropical da praia de Las Caletas, a cerca de uma hora de barco do Centro, aos pés da Sierra Madre.

(Versão original de texto originalmente publicado na revista Boa Viagem, do jornal O Globo.)

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