História e boas compras na cosmopolita Cidade de Ho Chi Minh

Ópera de Ho Chi Minh
Ópera de Ho Chi Minh

Saigon revive. Quarenta anos depois do fim da guerra, o lugar que viu cair o governo do então Vietnã do Sul — ou foi liberado do capitalismo, dependendo do ponto de vista ideológico — é hoje o emergente e vibrante centro econômico do país unificado. Rebatizada de Cidade de Ho Chi Minh (HCMC na sigla em inglês), em homenagem ao líder comunista, a maior cidade do país tem milhares de estrangeiros em suas ruas, onde arranha-céus dos últimos 15 anos estão ao lado de prédios centenários de arquitetura colonial francesa, carros importados disputam o asfalto com milhões de motos, e lojas de grifes internacionais convivem com o comércio tradicional.

Saigon / Foto de Carla Lencastre

Se em Hanói, a capital, ao norte, o culto ao comunismo ainda é forte, no sul do país a abertura econômica fica um pouco mais clara. HCMC é um bom ponto de partida para uma viagem pelo Vietnã. O cultivo de arroz continua sendo uma importante fonte de renda, mas a infraestrutura turística está cada vez melhor, e hoje o Vietnã está pronto para receber viajantes mais exigentes em busca de “uma nova Tailândia”, como os próprios vietnamitas costumam comparar.

Endereços “quentes” para combinar com a temperatura local

Por mais que Tio Ho (1890-1969), como é chamado, seja idolatrado pelos vietnamitas, os moradores da Cidade de Ho Chi Minh, rebatizada com o nome do herói comunista logo depois do fim da guerra, continuam se referindo à cidade como Saigon. Talvez porque ela tenha tido esse nome desde o século XVII, antes da chegada dos franceses. Ou porque sua alma continue a mesma: porto movimentado, capital da ex-colônia francesa por quase cem anos (da segunda metade do século XIX até depois da Segunda Guerra) ou quartel-general das tropas americanas quando era a capital do Vietnã do Sul, Saigon sempre se destacou como um centro político, financeiro e cultural. Não por acaso é hoje uma das cidades mais fascinantes do Sudeste Asiático, com mais de oito milhões de habitantes — a população do país é de 90 milhões. O Vietnã do Sul, que na época da guerra representava o regime capitalista e foi derrotado, parece vitorioso.

Saigon / Foto de Carla Lencastre

Mas deixe os sinais de abertura econômica para o final e comece seu passeio pelo passado, no emblemático Palácio da Reunificação, o principal monumento da cidade. O portão foi derrubado pelos tanques dos vietnamitas na manhã do dia 30 de abril de 1975, data que marca o fim da guerra — as tropas americanas saíram do país antes. O portão foi refeito e hoje é a lôi ra do pedaço, ou seja, a saída, em vietnamita.

Saigon / Foto de Carla Lencastre

Dois tanques do mesmo modelo e contemporâneos aos que derrubaram o portão estão em exposição nos jardins do palácio. Originalmente o prédio do século XIX tinha uma arquitetura francesa, do tempo em que o Vietnã era uma colônia, parte da Indochina, mas hoje o estilo arquitetônico do comunismo prevalece — a construção foi bombardeada, e praticamente destruída, em 1962.

Saigon / Foto de Carla Lencastre

O atual prédio branco não seduz pela beleza, mas pela história. Há diversos objetos da época da guerra, de telefones a carros. Pelos seus salões espalham-se de estofados puídos a mapas de guerra, passando por finas esculturas. No subsolo, uma exposição de fotos relembra o passo a passo da guerra. A imagem dos tanques derrubando o portão está lá, claro. A arquitetura original do palácio está desfigurada, mas há pelo menos dois outros bons exemplos da época da colonização francesa. O mais impressionante, não muito distante dali, em frente à Catedral de Notre-Dame, é a construção dos Correios, assinada por Gustave Eiffel. O outro é a Ópera.

O prédio dos Correios
O prédio dos Correios

Entre a catedral e a ópera de estilo clássico, ambos do final do século XIX, está uma das principais avenidas comerciais da cidade, a Dong Khoi, que pode ser percorrida a pé. Prepare-se para o calor. Todo mundo que assistiu aos muitos filmes de guerra sobre o Vietnã sabe que a selva tropical está logo ao lado da antiga Saigon, então há chuva em qualquer dia, a qualquer hora. Passe protetor solar, pegue uma garrafa de água e uma capa leve de chuva, use um calçado fechado e não deixe as condições climáticas atrapalharem este passeio tão diferente que está apenas começando.

Na avenida entre o prédio dos Correios e a Ópera fica o moderno Vincom Center, um grande shopping com lojas de grifes ocidentais. Mas a melhor parada para compras neste trecho é em uma grande livraria de rua, a Art Book, com ótimo acervo de livros em inglês com história e fotos do país, pôsteres e cartões-postais com reproduções de cartazes com propaganda de guerra e do regime comunista, e irresistíveis blocos e cadernos feitos à mão com papel de arroz, decorados com lindas aquarelas.

HCMC é um bom lugar para compras. Perto da Ópera, na Dong Khoi, há um lugar interessante chamado L’Usine, no número 151, no segundo andar de uma passagem comercial em um prédio original do final século XIX. É um café-loja, com saladas, sanduíches, sorvetes e cupcakes, roupas e objetos de design para casa, obras de arte. Na Dong Khoi, e também nas suas transversais, estão os melhores lugares para comprar aquarelas, gravuras e pinturas contemporâneas com motivos vietnamitas ou não; sedas caras (na Khaisilk, no número 107), objetos de laca a bons preços (na Saigon Crafts, número 74); bijuterias de chifres de búfalo e tênis bacanas, de marcas desconhecidas, mas todos made in Vietnam, como muitos das grandes grifes.

Há também uma graciosa loja de bolsas bordadas coloridas chamada Ipa-Nima (no número 77-79) e, para quem gosta, uma outra famosa de bolsas de couro de crocodilo — com certificado para sair do país — e cobra. É a Viet Thành, no número 137, em frente à Gucci. Lojas de grifes europeias e grandes hotéis também estão por toda a Dong Khoi. Com muitos moradores estrangeiros e turistas, a comunicação nas lojas é simples. A maioria dos vendedores fala e entende inglês com mais facilidade do que em outras regiões do país.

Le Loi
Le Loi

A Dong Khoi leva ao Rio Saigon. Porém, quanto mais perto dele, menos interessante a rua. A antiga Saigon cresceu de costas para o seu rio. Voltando para perto da Ópera, há outra avenida comercial, a Le Loi, com mais lojas de grifes, como Chanel, Ferragamo, Vuitton. Na esquina de Le Loi e Dong Khoi fica o Hotel Caravelle, base dos correspondentes estrangeiros durante a guerra. O prédio foi reformado, e ao lado foi erguido um anexo moderno. Na cobertura no nono andar do prédio original fica o tradicional bar Saigon Saigon, com vista para o rio (onde aconteciam combates noturnos durante a guerra) e a cidade. É um bom lugar para tomar uma bia gelada num fim de tarde quente. A cerveja local mais popular chama-se Saigon.

O centro da cidade é plano, e é fácil caminhar por suas ruas. Apenas tome cuidado redobrado ao atravessar, ainda que Saigon tenha sinais de trânsito em um cruzamento ou outro. Calcula-se que haja mais de três milhões de motos só nesta cidade, num fluxo que parece constante. São elas que movimentam a economia local, levando adultos e crianças (podem ser quatro ou até cinco em uma mesma moto), bichos mortos ou vivos (vi um porco, vivo), verduras, frutas, flores e todo tipo de coisa (compras do mercado, engradados, garrafas e mangueiras de plástico, molduras para quadros, pedras de gelo, tubos de PVC…). Procure nas livrarias e lojas de hotel pelo sensacional livro “Bikes of burden”, do fotógrafo holandês Hans Kemp, editado pela Visionary World, de Hong Kong. Dá uma ótima ideia da loucura que são as motocicletas no Vietnã.

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Os mais corajosos podem se aventurar pelas caóticas ruas de HCMC na garupa de um mototáxi, ou xe om, no idioma local. Mostre sempre o endereço escrito, porque as letras em vietnamita formam sons totalmente diferentes do português e do inglês, por exemplo. O preço deve ser combinado antes. Para atravessar a rua, a dica local é pisar no asfalto sem jamais parar ou olhar para trás. Muito menos retroceder. As motos é que desviam do pedestre. Nas primeiras vezes parece que você está prestes a cometer suicídio. Mas dá certo, tanto que estou aqui para contar a história.

A partir de HCMC é possível fazer um passeio de um dia ao delta do Rio Mekong, berço da produção de arroz, e também visitar os túneis de Cu Chi, usados pelos vietnamitas durante as guerras com os franceses e, mais tarde, os americanos.

Quem quer ser um milionário?
Saigon / Foto de Carla LencastreBasta chegar ao Vietnã e sacar dinheiro em um caixa eletrônico: o desvalorizadíssimo dongue novo (VND) faz com que você se sinta um milionário, cheio de notas com muitos zeros, todas decoradas com o rosto do Tio Ho, seja lá qual for o valor de face. Dez mil dongues valem US$ 0,50. Para as despesas do dia a dia, não é preciso muito. O custo de vida é baixo, e lojas, restaurantes e hotéis das grandes cidades aceitam pagamentos em dólares e cartões de crédito. O rosto do Tio Ho está nas notas e por todo o país. Mas se quiser vê-lo “vivo”, vá ao mausoléu em Hanói, que guarda seu corpo embalsamado.

CLIMA

No verão faz muito calor no Sul do país, e é alta temporada no centro e no norte. O outono tem temperaturas mais amenas, e a melhor época para viajar é depois de outubro. Na primavera, fique com abril. No inverno, pode fazer frio em Hanói e, principalmente, em Halong. Chove muito no Vietnã o ano inteiro, no país todo.

INTERNET

A rede Wi-Fi é boa e, geralmente, gratuita, inclusive nos grandes hotéis. O acesso às redes sociais é monitorado pelo governo.

DOCUMENTOS

Visto: É emitido pela Embaixada do Vietnã, em Brasília. O passaporte e os documentos podem ser enviados pelo correio. Tel. (61) 3364-5876.

Febre amarela: É necessário o certificado internacional. A vacina deve ser tomada até dez dias antes do embarque.

(Versão atualizada de texto originalmente publicado na revista Boa Viagem, do jornal O Globo.)

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